terça-feira, 27 de março de 2012

Capítulo 02 - Parte 04



Depois do meu quinto aniversário, a médica deixa de me apresentar aos fregueses, os possíveis pais. Há mais e mais perguntas em minha cabeça, e todo dia a necessidade por respostas cresce cada vez mais forte.

Meu desejo em explorar a ‘base da montanha’ se torna uma obsessão. Eu noto um ressoar misterioso quando subo no telhado, sozinho com a noite. O luar tinge as ruas do centro da cidade com um resplendor açucarado, o qual sonho provar.

Madeleine está sempre lembrando-me que haverá tempo para confrontar a realidade da cidade em breve.

‘Cada batida do seu coração é um pequeno milagre, sabe, então não seja levado por essas coisas. É um reparo improvisado e frágil. As coisas devem melhorar quando você crescer, mas deve ser paciente.’

‘Quantas vezes o ponteiro grande terá que dar a volta?’

‘Algumas... algumas. Eu quero que o seu coração se torne um pouco mais robusto antes que eu o deixe ir pra natureza.’

Não há como negar que meu relógio me causa uma ou duas preocupações. É a parte mais sensível do meu corpo.  Eu não permito que ninguém toque nele, a não ser Madeleine. Ela me dá corda toda manhã utilizando uma pequena chave. Quando eu fico resfriado, a tosse dói nas minhas engrenagens. Sinto como se elas fossem pular pela minha pele. E eu odeio o som de louça quebrada que elas fazem.

Mas, principalmente, estou preocupado em estar sempre quebrado. De noite, o tic-tac que reverbera pelo meu corpo não me deixa dormir. Eu posso desmaiar de cansaço no meio da tarde, mas eu me sinto no topo do mundo na calada da noite. Eu não sou um hamster ou um vampiro, apenas um insomaníaco.