Ele retira seu casaco e me pede
para dar uma olhada em suas costas. É embaraçoso, mas não posso dizer “não”.
‘Prá consertar a parte quebrada,
Dra. Madeleine enxertou um tiquinho de espinha musical e afinou os ossos. Daí
eu posso tocar diferentes notas se eu bater com um martelo em minhas costas.
Soa bacana, mas me faz andar de lado feito um caranguejo. Vá em frente, toque
algo que cê goste.’ diz ele segurando seu pequeno martelo para mim.
‘Eu não sei tocar nada.’
‘Relaxa, fiote, a gente canta
junto, cê vai ver só.’
Ele começa a cantar ‘Oh, When The
Saints,’ acompanhando com seu osso-phone. Sua voz é tão reconfortante quanto um
fogo crepitante no coração em uma noite de inverno.
Quando está saindo, ele abre sua
pochete, que está cheia de ovos de galinha.
‘O que você faz carregando todos
esses ovos por aí?’
‘Porque eles estão cheios de memórias...
Minha muié costumava cozinhá-los maravilhosamente. Quando eu os cozinho, sinto
como se estivesse de volta co’ela de novo.’
‘Você consegue cozinhá-los tão
bem quanto ela?’
‘Ná, eu termino sempre estragando
tudo, mas pelo menos é mais fácil prá manter as memórias vivas. Pega um, fiote,
se quiser.’
‘Eu não quero que você perca uma
memória.’
‘Okay, relaxa, fiote, eu tenho
muitos. Cê ainda não me entende, mas um dia cê vai ficar feliz quando abrir sua
bolsa e achar uma memória de quando era moleque.’
Por enquanto, sempre que os
acordes menores de ‘Oh When The Saints’ começam a tocar, minhas preocupações
desvanecem por algumas horas.

