Madeleine diz que eu pareço um pássaro branco
com pés grandes. Minha mãe responde que se ela não está olhando para mim, a
última coisa que quer é uma descrição.
‘Eu não quero ver, e eu não quero saber!’
Mas a doutora parece
preocupada. Ela não para de apalpar meu pequeno torso. O sorriso desaparece de
sua face.
‘Seu coração está muito rígido. Eu acho que
está congelado.’
‘O meu também. Não há a necessidade de se
fazer tanto escarcéu.’
‘Mas seu coração realmente está congelado!’
Ela me chacoalha de cima a baixo, e eu faço o
mesmo ruído de alguém fuçando uma caixa de ferramentas.
Dra. Madeleine se ocupa sobre seu balcão de
trabalho. Minha mãe espera, sentada em sua cama. Ela está tremendo agora e,
dessa vez, não tem nada a ver com o frio. Ela está como uma boneca de porcelana
que fugiu de uma loja de brinquedos.
Do lado de fora, a neve está caindo mais
rápido. Ervas prateadas escalam sobre os telhados. Rosas translúcidas curvam-se
sobre as janelas, iluminando a ruas. Gatos se tornam gárgulas, suas garras se
prendem nas calhas dos telhados.
Peixes estão nadando com força nos rios,
congelando durante o nado. A cidade inteira está nas garras de um “soprador de
vidros”, que exala um frio de morder a orelha. Em questão de segundos, os poucos corajosos que desafiam sair
ficam paralisados; você imaginaria se alguma divindade acabara de tirá-los uma
fotografia. Levados pelo momento de seus próprios espasmos, alguns começaram a
se mover como no ritmo de uma última dança. Eles quase aparentam beleza, cada
um assumindo o seu estilo, anjos torcidos com seus lenços pendurados no céu,
dançarinos de caixinhas de musica no final de suas performances, retardando
para as barras do seu último fôlego.
Em todo lugar, transeuntes congelados – ou
congelando – empalam-se na roseira de fontes. Apenas os relógios continuam a
fazer o coração da cidade bater, como se nada disso fosse extraordinário.

