domingo, 27 de novembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 04




Madeleine diz que eu pareço um pássaro branco com pés grandes. Minha mãe responde que se ela não está olhando para mim, a última coisa que quer é uma descrição.

           ‘Eu não quero ver,  e eu não quero saber!’

           Mas a doutora parece preocupada. Ela não para de apalpar meu pequeno torso. O sorriso desaparece de sua face.

‘Seu coração está muito rígido. Eu acho que está congelado.’
‘O meu também. Não há a necessidade de se fazer tanto escarcéu.’
‘Mas seu coração realmente está congelado!’

Ela me chacoalha de cima a baixo, e eu faço o mesmo ruído de alguém fuçando uma caixa de ferramentas.

Dra. Madeleine se ocupa sobre seu balcão de trabalho. Minha mãe espera, sentada em sua cama. Ela está tremendo agora e, dessa vez, não tem nada a ver com o frio. Ela está como uma boneca de porcelana que fugiu de uma loja de brinquedos.

Do lado de fora, a neve está caindo mais rápido. Ervas prateadas escalam sobre os telhados. Rosas translúcidas curvam-se sobre as janelas, iluminando a ruas. Gatos se tornam gárgulas, suas garras se prendem nas calhas dos telhados.

Peixes estão nadando com força nos rios, congelando durante o nado. A cidade inteira está nas garras de um “soprador de vidros”, que exala um frio de morder a orelha. Em questão de segundos, os poucos corajosos que desafiam sair ficam paralisados; você imaginaria se alguma divindade acabara de tirá-los uma fotografia. Levados pelo momento de seus próprios espasmos, alguns começaram a se mover como no ritmo de uma última dança. Eles quase aparentam beleza, cada um assumindo o seu estilo, anjos torcidos com seus lenços pendurados no céu, dançarinos de caixinhas de musica no final de suas performances, retardando para as barras do seu último fôlego.

Em todo lugar, transeuntes congelados – ou congelando – empalam-se na roseira de fontes. Apenas os relógios continuam a fazer o coração da cidade bater, como se nada disso fosse extraordinário.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 03



Durante seu longo trabalho de parto, minha mãe assiste distraidamente os flocos de neve e os pássaros silenciosamente esmagarem seus rostos contra a janela. Ela é muito jovem, como uma criança brincando de ser grávida. Ela se sente pessimista; ela sabe que não vai ficar comigo. Ela mal consegue baixar seu rosto e olhar para sua barriga, que está prestes a explodir. Assim como eu ameaço chegar, suas pálpebras fecham sem forçar. Sua pele se confunde com os lençóis: como se a cama a estivesse sugando, como se ela estivesse derretendo.

Ela já estava chorando durante a subida na colina para chegar aqui. Suas lágrimas congeladas rolavam pelo chão, como contas de um colar quebrado. Enquanto andava, um carpete de bolas brilhantes se movimentava sob seus pés. Ela começou a esquiar, logo viu que não conseguiria parar. A cadência de seus passos se tornou mais rápida. Seu salto ficou preso, seu calcanhar torceu e ela se debruçou no chão. Dentro dela, eu fiz o som como o de um porquinho de louça quebrando.

Dra. Madeleine é minha primeira visão. Seus dedos pegam meu crânio em forma de azeitona – uma bola de rugby em miniatura – e então no acolhemos pacificamente.

Minha mãe prefere virar o rosto. De qualquer forma,  suas pálpebras não querem mais funcionar. ‘Abra os seus olhos! Olhe para essa miniatura de floco de neve que você fez!






domingo, 20 de novembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 02



A cena é de uma velha casa empoleirada no topo da colina mais alta de Edimburgo,  o Trono de Arthur; os restos deste Rei devem estar dispostos no topo desse vulcão adormecido em quartzo azul. O telhado desta casa é criativamente pontiagudo. A chaminé, na forma de faca de açougueiro, sublinha as estrelas. A lua se mostra um quarto. Não há ninguém por perto, apenas árvores.

Dentro, tudo é feito de madeira, como se a casa tivesse sido esculpida de um gigantesco pinheiro. É como andar em um abrigo feito de um tronco: vigas inacabadas expostas, pequenas janelas resgatadas do cemitério de trens, e uma baixa mesa cortada d’um toco de árvore. Almofadas cheias de folhas mortas completam a atmosfera que lembra um ninho. Inúmeros partos clandestinos ocorrem nesta casa.

Aqui vive a estranha Dra. Madeleine, a parteira – também conhecida como “aquela louca” pelos residentes da cidade – que é até bonita para uma velha senhora. Ela ainda possui um brilho no olhar, mas seu sorriso é apenas um tique, revelando uma conexão solta em sua fiação facial.

Dra. Madeleine trás para o mundo as crianças de prostituas e mulheres abandonadas, que são muito novas ou muito infiéis para dar a luz de forma convencional. Assim como ajudar novas vidas, Dra. Madeleine ama consertar as pessoas. Ele é especialista em próteses mecânicas, olhos de vidros, pernas de pau... Não há nada que você não encontre em sua oficina.

Como o século dezenove caminha para o seu fim, é preciso um pouco mais para ser suspeito de bruxaria. Na cidade, as pessoas dizem que Madeleine mata os recém nascidos para modelar escravos a partir do ectoplasma, e que ela dorme com todos os tipos de pássaros para conceber monstros.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 01


CAPÍTULO UM
“Onde o pequeno Jack nasce no dia mais frio da Terra e, milagrosamente, ressuscita.”
           



Está nevando sobre Edimburgo neste 16º dia de abril, 1874. Um frio assustador e congelante se entranha na cidade. Idosos se perguntam se este poderia ser o dia mais frio da Terra. O sol parece ter desaparecido de vez. Um vento cortante, flocos de neve mais leves que o ar. BRANCO! BRANCO! BRANCO! Uma explosão abafada. Isso é tudo o que podemos ver. Casas que aparentam máquinas a vapor, enquanto a fumaça cinza que é exalada pelas chaminés brilha no céu metálico.



Edimburgo e suas calçadas estão se transformando. Fontes metamorformam-se, uma a uma, em buquês de gelo. O velho rio, normalmente tão sério, está disfarçado em um lago de gelo açucarado que se estica em todo seu caminho até o oceano. O som das ondas se propagam como janelas quebrando. Milagrosamente, a geada costura lantejoulas sobre os corpos dos gatos. As árvores esticam seus braços como fadas vestindo camisolas brancas bocejando para a lua, enquanto assistem as carruagens deslizando sobre a pista congelada de paralelepípedos. Está tão frio que os pássaros congelam durante seu vôo antes de colidir no chão. Os barulhos de suas quedas do céu não são tão macios quanto um cadáver deveria soar.



Este é o dia mais frio da Terra, e eu estou pronto para nascer.





domingo, 13 de novembro de 2011

Introdução


“Para você, Acacita, que fez com que este livro crescesse em minha barriga.”


Capa do disco La Mécanique du Coeur


“Primeiro: não toque os ponteiros do seu coração de cuco. Segundo: seja o mestre de sua raiva. Terceiro: nunca, nunca se apaixone. Porque se você o fizer, o ponteiro das horas irá atravessar sua pele, seus ossos irão trincar, e o seu coração irá quebrar mais uma vez.”


Capa do livro em inglês


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O que é isso?

Turma, boa noite. (Sempre imaginei que as pessoas lêem esse tipo de coisa na internet de noite.)

Alguns de vocês devem estar se perguntando o que é isso? Outros não. Na verdade, acho que a maioria não está se perguntando o que é isso, pois devem ter chegado aqui já sabendo mais ou menos do que se trata.

Entretanto, para os que não sabem, ou para os que sabem apenas parte, deixo uma breve explicação do que é isso. Tentarei faze-la cronologicamente

Em 2009, navegando por um de meus blogs favoritos, me deparo com o seguinte post: http://www.chongas.com.br/2009/03/musica-dionysos/.

Assim como toda banda que me é apresentada e que gosto, busco escutar o seu disco mais recente. Na época, este era o La Mécanique Du Coeur (2007). Gostei muito, desde a primeira vez que o ouvi. Músicas em francês, inglês e espanhol. O sentimento que tenho é de estar escutando a trilha sonora de algum filme do Tim Burton.

De tanto escutar, e com ajuda de uma amiga, fui percebendo a repetição de termos e nomes ao longo das faixas. Passei a utilizar o Google Translator para traduzir as músicas e tentar decifrar alguma coisa.

Com mais algumas pesquisas, descobri que o disco se trata de uma história baseada em um livro homônimo. Livro este, escrito pelo vocalista da banda e transformado em album. Como ambos foram lançados com uma diferença de apenas um mês, imagino que foram produzidos paralelamente.

Toda esta estória me impressionou muito, e passei a tentar juntar as peças do quebra-cabeça que as músicas formavam.

Com mais pesquisa, descobri que uma versão do livro seria lançada no final de 2009 em inglês na Europa. Com a viagem de uma outra amiga marcada para este mesmo lugar, durante o mesmo período, implorei por um exemplar de presente. E ela me deu no meu aniversário deste mesmo ano.

Este é o primeiro livro (romance) que li em inglês. Deu um certo trabalho, pois o vai-e-vem das folhas do dicionário chegam a quase fazer desistir.

Para melhorar o processo, decidi realizar uma tradução livre e, com isso, compartilhá-la com os demais interessados. Irei publicá-la aos poucos e vocês podem ir acompanhado.

Para terminar, segue a primeira faixa deste disco:

Obs.: este não é o clipe oficial.

Dionysos é uma banda de rock, francesa, formada em 2003.
Espero que gostem.

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