Depois do meu quinto aniversário,
a médica deixa de me apresentar aos fregueses, os possíveis pais. Há mais e
mais perguntas em minha cabeça, e todo dia a necessidade por respostas cresce cada
vez mais forte.
Meu desejo em explorar a ‘base da
montanha’ se torna uma obsessão. Eu noto um ressoar misterioso quando subo no
telhado, sozinho com a noite. O luar tinge as ruas do centro da cidade com um
resplendor açucarado, o qual sonho provar.
Madeleine está sempre
lembrando-me que haverá tempo para confrontar a realidade da cidade em breve.
‘Cada batida do seu coração é um
pequeno milagre, sabe, então não seja levado por essas coisas. É um reparo
improvisado e frágil. As coisas devem melhorar quando você crescer, mas deve
ser paciente.’
‘Quantas vezes o ponteiro grande
terá que dar a volta?’
‘Algumas... algumas. Eu quero que
o seu coração se torne um pouco mais robusto antes que eu o deixe ir pra
natureza.’
Não há como negar que meu relógio
me causa uma ou duas preocupações. É a parte mais sensível do meu corpo. Eu não permito que ninguém toque nele,
a não ser Madeleine. Ela me dá corda toda manhã utilizando uma pequena chave.
Quando eu fico resfriado, a tosse dói nas minhas engrenagens. Sinto como se
elas fossem pular pela minha pele. E eu odeio o som de louça quebrada que elas
fazem.
Mas, principalmente, estou
preocupado em estar sempre quebrado. De noite, o tic-tac que reverbera pelo meu corpo não me deixa dormir. Eu posso
desmaiar de cansaço no meio da tarde, mas eu me sinto no topo do mundo na
calada da noite. Eu não sou um hamster ou um vampiro, apenas um insomaníaco.
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