quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Capítulo 02 - Parte 03




Ele retira seu casaco e me pede para dar uma olhada em suas costas. É embaraçoso, mas não posso dizer “não”.

‘Prá consertar a parte quebrada, Dra. Madeleine enxertou um tiquinho de espinha musical e afinou os ossos. Daí eu posso tocar diferentes notas se eu bater com um martelo em minhas costas. Soa bacana, mas me faz andar de lado feito um caranguejo. Vá em frente, toque algo que cê goste.’ diz ele segurando seu pequeno martelo para mim.

‘Eu não sei tocar nada.’

‘Relaxa, fiote, a gente canta junto, cê vai ver só.’

Ele começa a cantar ‘Oh, When The Saints,’ acompanhando com seu osso-phone. Sua voz é tão reconfortante quanto um fogo crepitante no coração em uma noite de inverno.

Quando está saindo, ele abre sua pochete, que está cheia de ovos de galinha.

‘O que você faz carregando todos esses ovos por aí?’

‘Porque eles estão cheios de memórias... Minha muié costumava cozinhá-los maravilhosamente. Quando eu os cozinho, sinto como se estivesse de volta co’ela de novo.’

‘Você consegue cozinhá-los tão bem quanto ela?’

‘Ná, eu termino sempre estragando tudo, mas pelo menos é mais fácil prá manter as memórias vivas. Pega um, fiote, se quiser.’

‘Eu não quero que você perca uma memória.’

‘Okay, relaxa, fiote, eu tenho muitos. Cê ainda não me entende, mas um dia cê vai ficar feliz quando abrir sua bolsa e achar uma memória de quando era moleque.’

Por enquanto, sempre que os acordes menores de ‘Oh When The Saints’ começam a tocar, minhas preocupações desvanecem por algumas horas.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Capítulo 02 - Parte 02




No começo, eu não entendia o que estava acontecendo. Eu era muito jovem. Mas como fui crescendo, fiquei frustrado com o meu papel de vira-lata do canil. Como pode um simples relógio afastar as pessoas de mim tão horrivelmente? É apenas madeira, afinal.

Hoje, após ter falhado em ser adotado pela enésima vez, um do pacientes regulares da doutora se aproxima de mim. Arthur é um ex-policial que se tornou um mendigo alcoólatra. Tudo nele é amarrotado, do sobretudo às pálpebras. Ele é bem alto. Ficaria até mais alto se levantasse-se direito. Ele normalmente não fala comigo. E curioso como possa soar, eu gosto do nosso hábito silencioso. Existe algo tranqüilizador na forma que ele manca  pela cozinha, meio sorridente e acenando com a mão.

Enquanto Madeleine está cuidando do jovem, bem vestido casal na sala adjacente, Arthur ginga pelos cantos. Sua espinha range como o portão de uma prisão. Finalmente, ele diz:

‘Okay, não se preocupa, fiote. Nada dura prá sempre. Nós sempre melhoramos no final, mesmo que demore um tiquinho. Eu perdi meu emprego algumas semanas antes do dia mais frio do mundo, e minha muié me enxotou de casa. E em pensar que eu me alistei na policia por causa dela. Eu sonhava em ser músico, mas estávamos duros.’

‘O que aconteceu para a policia querer se livrar de você?’

‘Um leopardo nunca muda suas pintas. Eu costumava cantar o depoimento da testemunha ao invés de ler em voz alta, e eu gastei mais tempo no meu harmônio do que na máquina de escrever da delegacia. Além do mais, eu bebi um tiquinho de uísque,  o bastante prá dar aquela voz rouca... Okay, mas o que é que eles sabem? Eles me pediram para ir embora, no finzinho. Então foi quando tive que explicar para minha muié... Daí eu gastei meu restinho de dinheiro em uísque. E isso foi o que salvou minha vida, ta entendendo?’

Eu adoro o seu hábito de dizer 'ta entendendo?’. Solenemente, ele me explica como o uísque "salvou sua vida".

‘No dia 16 de abril de 1874, o frio rachou minha espinha: a única coisa que me impediu de congelar foi a quentura do álcool que empurrei prá dentro, depois daqueles eventos sombrios. Eu sou o único mendigo que sobreviveu. Todos os meus parceiros morreram de frio.’



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Capítulo 02 - Parte 01


CAPÍTULO DOIS
“Um coração improvisado, espinha enferrujada, e uma viagem à base da montanha.”
           



Todo dia, Madeleine tem visitantes batendo em sua porta. Pacientes acabam por aqui quando estão com algo quebrado e não podem pagar um médico ‘qualificado’. Estando ela afinando, ou remendando e discutindo, Madeleine gosta de mexer com o coração das pessoas. Eu não acho meu coração de cuco esquisito quando escuto um paciente reclamando de sua espinha enferrujada. 

‘É feita de metal, o que você esperava?’

 ‘Sim, mas range quando eu mexo meu braço!’

 ‘Eu já prescrevi um guarda chuva para você. Eu sei que pode ser difícil encontrar um na farmácia. Irei emprestar o meu dessa vez, mas tente conseguir um antes da nossa próxima consulta.’

 Eu também sou testemunha do desfile dos jovens, bem vestidos casais que escalam a colina para adotar as crianças que eles mesmo não conseguiram ter. É um pouco como uma visitação de casas. Madeleine canta todos os louvores desta ou daquela criança que nunca chora, come uma dieta balanceada e já está acostumada com o troninho.

 Obrigado a sentar no sofá, eu aguardo minha vez. Eu sou o menor modelo; é quase possível me espremer em uma caixa de meias. Quando os prospectivos pais viram sua atenção para mim, sempre começam com um sorriso falso, até que um deles indaga: ‘De onde este tic-tac está vindo?’


 É quando a médica me senta em seu colo, desabotoa minha roupa e revela meu curativo. Alguns se assustam, outros apenas viram o rosto e dizem:

‘Oh meu Deus! O que diabos é essa coisa?’

‘Se dependesse de Deus, nós não estaríamos conversando agora. Esta “coisa”, como você chama, é um relógio que permite que o coração desta criança bata normalmente.’ responde ela, seca.

 O jovem casal se olha, embaraçados, e saem para cochichar no próximo aposento, mas o veredicto é sempre o mesmo.

‘Não, obrigado. Podemos ver outras crianças?’

‘Sim, me sigam, eu tenho duas garotinhas que nasceram durante a semana do natal’, ela sugere, animada.



domingo, 11 de dezembro de 2011

Faixa 01 - O dia mais frio do mundo

           Então, turma, com o fim do primeiro capítulo, resolvi fazer algo diferente aqui. Como referência ao Álbum neste primeiro capítulo, temos apenas a primeira faixa. Então segue a letra, a tradução e a música para download (Retirei o link. Esta estória de pirataria pode não dar certo). Não achei a cifra. Se alguém achar por favor deixa um recado.


Ao Vivo




---- LETRA (Tradução) ----



Le Jour Le Plus Froid du Monde

On dit que je suis né le jour le plus froid du monde. (Dizem que eu nasci no dia mais frio do mundo.)
On dit que je suis né avec le coeur gelé. (Dizem que eu nasci com o coração congelado.)
On dirait même qu'on m'a porté à bout de ventre (Dizem até mesmo que sai do ventre)
en haut de la colline qui surplombe la ville... (no alto da colina que cerca a cidade...)
Et Ses Clochers! (E seus campanários!)

Là haut vivait dans une drôle de maison, (Lá em cima vivia em uma casa enstranha,)
une sage femme dite folle par tous les habitants. (uma parteira tida como louca por todos os habitantes.)
Alors qu'elle passait son temps à réparer les gens, (Então ela passava o tempo a consertar as pessoas,)
les perdus, les cassés, avec ou sans papier. (os perdidos, os quebrados, com ou sem papéis.)

(Refrão)
Oh Madeleine qui aimait tant, (Oh Madeleine que tanto amava,)
Oh Madeleine qui adorait... (Oh Madeleine que adorava...)
Oh Madeleine qui aimait tant... (Oh Madeleine que tanto amava...)
Reparer Les Gens! (Consertar as pessoas!)

Oh Madeleine qui aimait tant, (Oh Madeleine que tanto amava,)
Oh Madeleine qui adorait... (Oh Madeleine que adorava...)
Oh Madeleine qui aimait tant... (Oh Madeleine que tanto amava...)
Reparer Les Gens! (Consertar as pessoas!)

Comme elle m'a installé sur la table de la cuisine (Como ela me colocou sobre a mesa da cozinha)
j'ai cru un instant qu'elle voulait me dévorer. (por um instante pensei que iria me devorar.)
Me prendrait-elle pour une poulet grillé, (Ela achava que eu era um frango grelhado)
que l'on aurait oublié de tuer(que esqueceram de matar?)

Elle me découpait la peau de la poitrine. (Ela recortou a pele do meu peito.)
Ses grands ciseaux crantés plantés entre mes os, (Sua grande tesoura serrilhada plantada entre meus ossos,)
elle a glissé une horloge dans mes débris glacés (ela deslizou um relógio dentro de meus detritos gélidos)
en lieux et place de mon petit coeur gelé. (no lugar do meu pequeno coração congelado.)

(Refrão)
Oh Madeleine qui aimait tant, (Oh Madeleine que tanto amava,)
Oh Madeleine qui adorait... (Oh Madeleine que adorava...)
Oh Madeleine qui aimait tant... (Oh Madeleine que tanto amava...)
Reparer Les Gens! (Consertar as pessoas!)

Oh Madeleine qui aimait tant, (Oh Madeleine que tanto amava,)
Oh Madeleine qui adorait... (Oh Madeleine que adorava...)
Oh Madeleine qui aimait tant... (Oh Madeleine que tanto amava...)
Reparer Les Gens! (Consertar as pessoas!)
[Ouh ouh ouh ouh ouh]

Elle m'a dit mon petit ya trois choses que jamais, (Ela me disse "meu pequeno, existem três coisas que jamais,)
oh grand jamais tu n'devras oublier. (nunca poderá esquecer.)
Premièrement ne touche pas à tes aiguilles. (Primeiramente não toque nos seus ponteiros)
Deuxièment ta colère tu devras maitriser. (Em segundo lugar, você deverá dominar sua raiva)

Et surtout ne jamais oublier quoi qu'il arrive, (E, sobretudo, nunca esqueça, o que acontecer)
ne jamais se laisser tomber amoureux. (nunca se deixe apaioxonar)
Car alors pour toujours, à l'horloge de ton coeur (Porque, então, no relógio do seu coração)
la grande aiguille des heures transpercera ta peau, (o ponteiro grande perfurará sua pele,)
explosera l'horloge, imploseront tes os, (o relógio irá explodir, os seus ossos irão implodir,)
la mécanique du coeur sera brisée de nouveau. (a mecânica do coração será quebrada novamente")

(Refrão)
Oh Madeleine qui aimait tant, (Oh Madeleine que tanto amava,)
Oh Madeleine qui adorait... (Oh Madeleine que adorava...)
Oh Madeleine qui aimait tant... (Oh Madeleine que tanto amava...)
Reparer Les Gens! (Consertar as pessoas!)

Oh Madeleine qui aimait tant, (Oh Madeleine que tanto amava,)
Oh Madeleine qui adorait... (Oh Madeleine que adorava...)
Oh Madeleine qui aimait tant... (Oh Madeleine que tanto amava...)
Reparer Les Gens! (Consertar as pessoas!)

Oh, Madeleine...
Oh, Madeleine...
Oh, Madeleine...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 07



           Os primeiros raios de luz saltam da neve e esgueiram-se através das persianas. Dra. Madeleine está exausta. E por mim, adormeci; talvez eu esteja morto, pois meu coração parou por muito tempo.

           Só, então, um cuco canta tão alto em meu peito que tusso surpreso. Olhos arregalados, eu vejo Dra. Madeleine com seus braços para o alto, como se tivesse acabado de marcar um pênalti em uma final da copa do mundo.

           Ela começa a dar pontos em meu peito com a agilidade de um alfaiate formado; Eu não estou exatamente maltratado, mas minha pele parece velha, com rugas que parecem Charles Bronson. Elegante. O mostrador está protegido por um curativo enorme.

           Toda manhã, eu preciso receber corda com uma chave. Ao contrário me arrisco a entrar em um sono eterno.

           Minha mãe diz que eu pareço como um grande floco de neve com ponteiros de relógios saindo. Madeleine replica que é um bom sistema para me encontrar em uma tempestade de neve.

           É meio dia e a medica, com seu caloroso hábito de sorrir em meio às catástrofes, escolta este suspiro de garota até a porta. Minha jovem mãe anda vagarosamente. Seus lábios tremem.

           Ao longo em que ela se distancia, aparenta uma velha mulher abatida em um corpo de uma adolescente. Quando se funde com a névoa, se torna um fantasma de porcelana. Eu nunca mais porei meu olhos nela novamente depois deste estranho e milagroso dia.

------ Final do Capítulo 01 ------

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 06



     Dra. Madeleine veste um avental branco. Dessa vez eu tenho certeza que ela vai voltar ao trabalho na cozinha. Eu me sinto como o frango grelhado que eles esqueceram de matar. Ela caça um par óculos de soldador ao redor da vasilha de saladas, escolhe um e cobre o restante do seu rosto com um lenço. Eu não consigo mais vê-la sorrindo. Ela se inclina sobre mim e me força a respirar éter. Minha pálpebras fecham, se rendendo como persianas numa tarde de verão em alguma lugar longe daqui. Eu já não quero mais gritar. Eu olho para ela, então o sono vagarosamente toma conta de mim. Tudo nela é curvo: seus olhos, suas bochechas enrugadas como uma maça Cox’s Orange Pippins, seus seios. Ela é feita para lhe envolver. Eu vou fingir estar com fome mesmo quando eu não esteja, apenas para me esconder no seu peito. Ela corta a pele do meu peito usando um grande par de tesouras serrilhadas. O toque de deus pequenos dentes fazem cócegas. Ela desliza o relógio debaixo de minha pele e começa a conectar as engrenagens nas artérias do meu coração. É um processo delicado; nada pode ser danificado. Ela usa um arame de aço super fino fazendo uma dúzia de nós em miniatura.  O coração bate de tempos em tempos, mas apenas uma mínima quantidade de sangue é bombeada nas artérias. ‘Como ele é branco!’, sussurra.

          Chegou a hora da verdade. Dra. Madeleine ajusta o relógio para meia-noite... Nada acontece. O mecanismo do relógio não parece forte o bastante para estimular o coração. Eu não tive nenhum pulso por um longo e perigoso período de tempo. Minha cabeça está girando, em um sonho exaustivo. A medica aperta gentilmente as engrenagens para colocá-las em movimento. Tic-tac, faz o relógio. Bo-boom, responde o coração, e as artérias se tornam vermelhas. Pouco a pouco, o tic-tac fica mais rápido, e da mesma forma o bo-boom. Tic-tac. Bo-boom. Tic-tac. Bo-boom. Meu coração está quase batendo na velocidade normal. Dra. Madeleine gentilmente remove seus dedos das engrenagens. O relógio desacelera. Ela reinicia o dispositivo; mas no momento em que ela tira os dedos, o pulso enfraquece. Ela aparenta alguém que abraça uma bomba, aguardando o momento em que irá explodir.

         Tic-tac. Bo-boom. Tic-tac. Bo-boom.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 05


Eles me avisaram para eu não subir no topo do Trono de Arthur. Todos diziam que a velha senhora era louca, pensou minha mãe. A pobrezinha parecia estar morrendo com o frio. Se a médica estava ocupada consertando meu coração, imagino que ela teria um trabalho ainda maior com o da minha mãe... Cá estou eu, deitado completamente nu, aguardando na bancada próxima ao balcão de trabalho, meu peito preso em um torno metálico. E eu começo a me sentir seriamente com frio.

           Um velho gato preto, com maneiras servis, está empoleirado em cima de uma mesa de cozinha. A médica fez um par de óculos para ele. Armação verde para combinar com seus olhos – elegante. Calmamente, ele assiste à cena, tudo que falta nele é um jornal sobre finanças e um cigarro.

           Dra. Madeleine começa a vasculhar a prateleira de relógios de corda. Ela remove vários modelos diferentes: de aparência severa e pontiaguda, arredondados, de madeira e de metal, mostrando a ponta dos ponteiros dos relógios. Com uma orelha ela escuta o meu coração defeituoso, com a outra o tic-tac dos relógios. Ela torce seus olhos, aparentemente insatisfeita. Ela parece como uma daquelas terríveis senhoras de idade que levam quinze minutos para escolher um tomate no mercado. De repente, sua face se ilumina ‘Esse!’ ela grita, acariciando as engrenagens de um antigo relógio de cuco.

           O relógio mede aproximadamente quatro centímetros por oito, e é feito inteiramente de madeira com exceção de suas partes mecânicas, o mostrador e as alças. O acabamento é bastante rústico, ‘resistente’, pensa a médica em voz alta. O cuco, alto como o osso do meu dedinho, dá o ar de um pássaro morto.

           ‘Você terá um bom coração com esse relógio! E será uma excelente combinação para sua cabeça em forma de pássaro’, Dra. Madeleine disse para mim.

           Eu não sou tão experiente nesse negócio de pássaros. Dito isso, ela está tentando salvar a minha vida, então eu não discuto.