terça-feira, 3 de abril de 2012

Capítulo 02 - Parte 05



Então, novamente, como é comum nos casos com as pessoas que sofrem de algum mal, existem algumas vantagens. Eu amo aqueles preciosos momentos quando a Madeleine desliza adentrando meu quarto  como um fantasma em sua camisola, uma xícara de chocolate quente em sua mão, para acalmar minha insônia com canções de ninar mal-assombradas. Às vezes ela canta até o amanhecer, acariciando minhas engrenagens com a ponta dos dedos. É um momento tenro. Love is dangerous for your tiny heart (O amor é perigoso para seu pequeno coração), ela repete hipnoticamente. Ela poderia estar entoando um cântico de um antigo livro de feitiços, para me ajudar a dormir. Eu gosto de ouvir a sua voz zunindo embaixo do céu estrelado, mesmo que tenha algo estranho na forma em que ela sussurra love is dangerous for your tiny heart.

No meu décimo aniversário, Dra. Madeleine finalmente concorda em me levar até a cidade. Eu tenho suplicado à ela por tanto tempo... E mesmo assim, até o último momento, ela não deixou de tentar adiar o grande evento, arrumando coisas em vez disso, andando de um cômodo para outro.

Enquanto estou lá embaixo, no porão, batendo meus pés impacientemente, descubro uma prateleira com vários jarros. Alguns estão etiquetados com ‘Lágrimas 1850-1870’, e outras estão cheias com ‘Maçãs do Jardim,.

‘De quem são todas essas lágrimas?’ perguntei à ela.

‘São minhas. Sempre que começo a chorar, eu recolho minhas lágrimas em um frasco e armazeno  na minha adega para preparar coquetéis.’

‘Como conseguiu derramar tantas lágrimas?’

‘Quando eu era jovem, um embrião se perdeu no caminho ao meu ventre. Ele ficou preso em uma das minhas trompas causando uma hemorragia interna. Desde esse dia, não consigo mais ter filhos. Eu chorei muito, apesar de ser muito feliz em trazer os filhos de outras pessoas ao mundo. Mas as coisas estão bem melhores agora que você está aqui...’

Estou envergonhado apenas por ter perguntado.

‘Depois de um particular dia de soluços, eu percebi que as lágrimas me reconfortavam ao bebê-las, especialmente quando misturadas com vinagre de cidra. Mas não deve bebê-las quando estiver se sentindo bem,  caso contrário ficará preso em um círculo vicioso, onde apenas se sentirá feliz quando beber suas próprias lágrimas, então deverá manter-se chorando para poder continuar bebendo.

‘Mas você gasta todo o seu tempo consertando as outras pessoas, então porque afogar suas feridas no álcool de suas próprias lágrimas?’

‘Não vamos nos preocupar com tudo isso, hoje nós vamos em direção da cidade! Não temos um aniversário para celebrar?’ pergunta, forçando um sorriso.


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