quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Capítulo 02 - Parte 03




Ele retira seu casaco e me pede para dar uma olhada em suas costas. É embaraçoso, mas não posso dizer “não”.

‘Prá consertar a parte quebrada, Dra. Madeleine enxertou um tiquinho de espinha musical e afinou os ossos. Daí eu posso tocar diferentes notas se eu bater com um martelo em minhas costas. Soa bacana, mas me faz andar de lado feito um caranguejo. Vá em frente, toque algo que cê goste.’ diz ele segurando seu pequeno martelo para mim.

‘Eu não sei tocar nada.’

‘Relaxa, fiote, a gente canta junto, cê vai ver só.’

Ele começa a cantar ‘Oh, When The Saints,’ acompanhando com seu osso-phone. Sua voz é tão reconfortante quanto um fogo crepitante no coração em uma noite de inverno.

Quando está saindo, ele abre sua pochete, que está cheia de ovos de galinha.

‘O que você faz carregando todos esses ovos por aí?’

‘Porque eles estão cheios de memórias... Minha muié costumava cozinhá-los maravilhosamente. Quando eu os cozinho, sinto como se estivesse de volta co’ela de novo.’

‘Você consegue cozinhá-los tão bem quanto ela?’

‘Ná, eu termino sempre estragando tudo, mas pelo menos é mais fácil prá manter as memórias vivas. Pega um, fiote, se quiser.’

‘Eu não quero que você perca uma memória.’

‘Okay, relaxa, fiote, eu tenho muitos. Cê ainda não me entende, mas um dia cê vai ficar feliz quando abrir sua bolsa e achar uma memória de quando era moleque.’

Por enquanto, sempre que os acordes menores de ‘Oh When The Saints’ começam a tocar, minhas preocupações desvanecem por algumas horas.


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