domingo, 15 de abril de 2012

Capítulo 02 - Parte 06



Depois da perturbadora estória sobre as lágrimas de Madeleine, demora um pouco para sentir-me excitado enquanto descemos a colina. Mas tão logo vejo Edimburgo, meus sonhos se ultrapassam.
Me sinto como Cristóvão Colombo descobrindo a América. O emaranhado de ruas acena como um amante. As casas inclinam-se umas sobre as outras, encolhendo o céu. Estou correndo! Um simples suspiro poderia derrubar a cidade inteira em um jogo de dominós.  Estou correndo! As árvores ainda estão presas lá no topo da colina, mas aqui embaixo as pessoas estão florescendo em todos os lugares, as mulheres: uma explosão de flores; chapéus de papoula, vestidos de papoula. Eu as vejo inclinando-se sobre os balcões das janelas, tão longe quanto o mercado que ilumina Salisbury Place.
Estou sentindo tudo: tamancos soando alto sobre as calçadas; vozes misturadas que me carregam. E a grande torre do sino, batendo com um coração dez vezes maior que o meu.
‘Aquilo é o meu pai?’
‘Não, não, não é o seu pai... Está badalando uma hora; ele bate apenas uma vez por dia.’, responde Madeleine prontamente.
Nós cruzamos o quarteirão. Música pode ser ouvida depois da esquina da rua ao lado, tão maliciosa e melancólica quanto um brilho harmonioso. A melodia me tira o fôlego; dentro de mim, está chovendo e reluzindo ao mesmo tempo.
‘Isso é um realejo. Bonito, não é?’ Madeleine me fala. ‘Funciona mais ou menos como o seu coração, que é, provavelmente, o porque de você ter gostado tanto. É mecânico por fora, com emoções por dentro.’
Estou convencido que acabei de ouvir o som mais delicioso da minha vida, mas a ardente surpresa está apenas começando. Uma garota minúscula, como uma árvore florescendo, sai em frente ao realejo e começa a cantar. A sua voz é como um rouxinol, mas com palavras.

‘My spectacles have been mislaid
I didn’t want to wear’em
Fire-girl behind those shades
My face looke funny, I’m afraid.’

Os seus braços parecem galhos e seu cabelo preto e encaracolado define seu rosto que brilha, mexendo com as sombras de seu fogo. Seu pequeno nariz é tão perfeito, que eu não sei como ela consegue respirar – talvez seja apenas de enfeite. Mas ela dança como um pássaro, sobre o andaime feminino do salto agulha. Seus olhos são tão enormes que você pode aguardar enquanto mergulha neles. Revelam uma determinação feroz. Ela carrega sua cabeça erguida, como uma dançarina de flamenco em miniatura. Seus seios assemelham-se a dois merengues assados tão requintadamente que seria rude não comê-los imediatamente.

‘I don’t mind if I’m half blind
When I sing or when a I kiss
I prefer to close my eyes
In this hazy state of bliss.’

Eu me sinto quente. O carrossel da pequena cantora me apavora, mas eu também estou me matando para subir nele. O cheiro de algodão doce e poeira resseca minha garganta. Eu não tenho a menor idéia de como esse carrossel cor de rosa funciona, mas eu tenho que subir à bordo.
De repente, como em uma comédia musical, eu irrompo na canção. Dra. Madeleine me dá um olhar que diz ‘tire-as-suas-mãos-desse-fogão-agora’.

‘Oh my little fire, let me taste your attire,
Shred your clothes to a tatter,
As confetti make them scatter,
Then I’ll Kiss you in that shower...’

Eu falei ‘confetti’? O olhar de Madeleine aumenta de volume.

‘Lost in a heartbeat,
Far away on my own street,
Can’t look the Sky in the eye,
All I see is fire.’

Nós começamos a cantar juntos, indo e voltando.

‘I’ll guide you through this city’s passes,
And be your special pair of glasses,
You’ll be the match I strike,
Yes, you’ll be the match I strike.’

‘I’ve got something to admit,
I hear you now but should you sit
Upon a bench, I couldn’t tell
Between your handsome self an it!’

‘Let’s stroke each other, eyes shut tight,
Til our skeletons catch alight,
Let’s start a fire on the hour
My cuckoo-clock chimes midnight.’

‘I’m a little fire girl, so it’s no surprise
When the music stops I can’t open my eyes.
I blaze like a match, and thousands flames burn my glasses,
So it’s no surprise, I can’t open my eyes.’


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