terça-feira, 1 de maio de 2012

Capítulo 03 - Parte 02




A ardósia me aterroriza. Não preciso nem ler o que está escrito, eu conheço essas palavras de dentro pra fora e de trás para frente. E elas sopram um vento doente por entre minhas engrenagens.

Mas frágil como o meu relógio possa ser, a pequena cantora se acomodou confortavelmente. Ela está deixando suas malas pesadas em cada canto, e eu, ainda assim, sou mais leve do que antes de a conhecer.

Não importa o quanto custar, eu tenho que encontrar uma forma de rastreá-la novamente. Qual o nome dela? Onde posso encontrá-la? Eu sei que ela não pode ver muito bem e canta como um pássaro, só que com palavras. Isto é tudo.

Eu tento discretamente, perguntando aos jovens casais que vêm à Dra. Madeleine à procura de uma criança para adotar. Nenhuma resposta. Eu arrisco minha sorte com Arthur. "Eu a ouvi cantar na cidade uma vez, mas eu não a vejo por um tantinho de tempo, fío." As garotas podem estar mais dispostas a me mostrar o caminho.

Anna e Luna são duas prostitutas que sempre aparecem na época do Natal com seus olhares baixos e suas barrigas arredondadas. Pela maneira como elas continuam me dizendo: "Não, não, não sabemos nada, absolutamente nada... absolutamente nada, não é Anna? Nem uma coisa se quer, nós não", posso dizer que estou no caminho certo.

Elas se parecem com duas crianças adultas. E é o que são, duas crianças com 30 anos de idade, com fantasias de pele de leopardo. Suas roupas têm sempre um cheiro estranho de ervas provençais, mesmo quando não estão fumando. Seus cigarros criam uma aura nebulosa e fazem as meninas rirem tanto, que eles devem estar sentindo cócegas em seus cérebros. Seu jogo favorito envolve me ensinar novas palavras. Elas nunca revelam os significados, elas só querem ter a certeza de que posso pronunciar tudo perfeitamente. De todos os nomes maravilhosos que já me ensinaram, meu favorito é cunnilingus. Imagino-o como um herói romano, Cu-ni-lin-Guss, Cunnilingus, Cunnilingus. Que palavra fantástica!

Anna e Luna nunca aparecem de mãos vazias. Há sempre um ramo de flores roubado do cemitério, ou o casaco de um cliente, roubado durante o coito. Para o meu aniversário, eles me deram um hamster. Chamei-o Cunnilingus. ‘Cunnilingus, meu amor!’ Luna canta sempre para ele, enquanto ela bate nas barras da jaula com suas unhas pintadas.

Anna é uma rosa alta e desbotada, com um olhar de arco-íris, no lugar de de sua pupila esquerda, há uma pedra de quartzo, inserido por Madeleine para substituir o olho que foi lhe arrancado por um cliente que não quisera pagar, e ela muda de cor conforme o clima. Ela sempre fala muito rápido, como se estivesse com medo do silêncio. Quando pergunto a ela sobre a pequena cantora, ela me diz que nunca ouviu falar dela. Mas suas palavras saem ainda mais rápido do que o habitual. Eu acho que ela está morrendo de vontade de me contar um grande segredo, para que eu possa lhe fazer uma pergunta ou duas sobre o amor, mas em voz baixa, porque eu realmente não quero que Madeleine se intrometa.

“Eu venho trabalhado com “amor” ha muito tempo, você sabe. Eu não tenho sempre um final feliz, mas às vezes apenas o simples ato de compartilhar me faz feliz. Eu não sou uma boa profissional. Eu me apaixono logo que um cliente se torna regular, e então eu começo a recusar o seu dinheiro. Por algum tempo eles vêm todos os dias, e até mesmo trazem-me presentes. Mas, eventualmente, seu entusiasmo desaparece. Eu sei que eu não deveria me apaixonar por eles, mas não consigo evitar. É ridículo, mas eu gosto de acreditar no impossível.”

‘No impossível?’

‘Não é fácil ser simples de coração quando se está na minha profissão.’

‘Eu acho que entendo.’

E, então, há Luna, uma loira brilhante, uma precursora da famosa cantora egípcia Dalida, com seus gestos lentos e sorriso quebrado, uma equilibrista sobre os saltos agulha mais finos. Parte de sua perna direita congelou no dia mais frio da terra. Madeleine a substituiu por uma prótese de madeira de nogueira amarrada com seu próprio suspensório estampado. Ela me lembra a pequena cantora - elas compartilham o mesmo sotaque rouxinol, a mesma espontaneidade.

“Você não saberia nada sobre uma pequena cantora que fala assim como você e que está sempre esbarrando nas coisas?” Eu pergunto à ela a cada instante.

Ela finge não me ouvir e muda de assunto. Suponho que Madeleine a fez prometer não falar nada sobre a pequena cantora.

Um belo dia, entediada em ignorar as minhas perguntas, ela responde:

‘Eu não sei nada sobre a pequena andalusiana...’

‘O que é uma andalusiana?’

‘Eu não disse nada, absolutamente nada! Por que você não pergunta à Anna?’

‘Anna não sabe nada...’

Eu tento o velho truque do menino triste, de cabeça abaixada e olhos semicerrados.

‘Pelo que posso ver, você já aprendeu o básico da sedução’, Anna continua. ‘Você promete não contar à nin-guém?’

‘Claro que não!’

Ela começa a sussurrar e suas palavras são quase inaudíveis.


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