quarta-feira, 2 de maio de 2012

Capítulo 03 - Parte 03



‘Sua pequena cantora vem de Granada, na Andaluzia, que é longe daqui. Faz algum tempo desde que eu a ouvi cantar na cidade... Talvez ela tenha voltado ao país onde nasceu, para morar com os avós...’

‘A não ser que ela esteja apenas na escola’, acrescenta Anna, com sua voz como um  disco de 33 rotações que está sendo tocado em 45.

‘Obrigado!’

‘Ssssh ... ¡calla te!’ diz Luna, que só usa sua língua nativa quando está irritada.

Meu sangue está borbulhando, eu não posso acreditar na minha sorte. Uma onda de pura alegria. Meus sonhos explodem como uma massa no forno. Acho que estou pronto para fazer a viagem à realidade. Amanhã vou reunir minhas energias no topo da colina, abrir minha grande vela, e ir de cabeça convencer Madeleine.

‘Ir para a escola? Mas você vai ficar entediado! Você vai ser obrigado a ler livros que você não gosta, enquanto aqui você pode escolher o que mais lhe agradar. Você vai ter que se sentar por horas a fio e não terá permissão para falar, ou fazer qualquer barulho. Você vai ser obrigado a esperar até o intervalo, mesmo quando quiser apenas sonhar. Eu conheço você - sei o quanto você vai odiar’.

‘Talvez, mas estou curioso para descobrir o que as pessoas aprendem na escola.’

‘Você quer estudar?’

‘Sim, isso mesmo. Eu quero estudar. E eu não posso fazer tudo aqui sozinho.’

Estamos tentando nos esquivar um do outro com nossas mentiras. Estou preso entre a vontade de rir e a de gritar de raiva.

‘Para começar, seria melhor rever o que está escrito em sua placa de árdósia. Parece-me que você anda esquecendo um pouco rápido demais. Eu me preocupo com o que poderia acontecer com você.’

‘Todo mundo vai à escola. Quando você está no trabalho, eu me sinto sozinho no topo desta montanha, e eu gostaria de encontrar algumas crianças da minha idade. É hora de eu descobrir sobre o mundo, você não vê?’

‘Descobrir sobre o mundo na escola...’ (Um longo suspiro.)

‘Tudo bem, se você quiser ir à escola, eu não vou ficar no seu caminho’, Madeleine finalmente admite, soando como se uma pequena parte dela tivesse morrido.

Eu tento o meu melhor para conter a minha alegria. Pode não ser uma boa idéia dançar com os braços no ar.

O dia que eu estive esperando finalmente chegou. Eu estou vestindo um terno preto que me faz parecer muito adulto, apesar dos meus onze anos. Madeleine me instruiu a nunca tirar meu casaco, nem mesmo na classe; assim ninguém vai descobrir sobre o meu relógio de cuco.

Antes de partir, fui cuidadoso ao deslizar para dentro de minha mochila um par de óculos que eu roubei de sua oficina. Eles ocupam mais espaço do que os livros de exercícios. Eu mudei Cunnilingus para o meu bolso esquerdo da camisa, logo acima do relógio do meu coração. Ele cutuca a cabeça para fora de vez em quando, olhando completamente satisfeito.

‘Tenha cuidado para ele não morder ninguém!’ brincam Anna e Luna, enquanto começamos a descer o morro.

Mancando, um pouco atrás de nós, vem Arthur, rangendo silenciosamente.

A escola está localizada na área endinheirada de Calton Hill, exatamente em frente à Catedral de St Giles. Perto da entrada, o que se vê é um país de casacos de peles e crepitantes mulheres, que falam em voz alta como galinhas gigantes. A forma como Anna e Luna riem, as deixam carrancudas. Elas observam a marcha tropega de Arthur e suspeitam do inchaço que meu pulmão esquerdo faz. Seus maridos arrumados e alinhados parecem cabides ambulantes; eles fingem estar chocados com nossa tribo deformada, mas isso não os impede de dar uma olhada nos decotes das duas garotas.



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