quinta-feira, 3 de maio de 2012

Capítulo 03 - Parte 04



Depois de um adeus rápido à minha família improvisada, eu atravesso os enormes portões - parece que fui matriculado em uma instituição para gigantes. A escola parece impossível de se atravessar, mesmo que suas traves de futebol dêem um toque acolhedor.

Eu dou os meus primeiros passos, examinando os diferentes rostos. Os alunos parecem uma versão em miniatura de seus pais. Meu relógio pode ser ouvido claramente através do sussurro das crianças. Eles estão olhando para mim como se eu tivesse alguma doença contagiosa. De repente, uma menina de cabelos castanhos para na minha frente, olha, e começa a dizer "tic-tac, tic-tac" e a rir. O patio inteiro se junta. É a mesma sensação de quando as famílias visitavam a Dra. Madeleine para escolher os seus filhos, mas pior. Mesmo que depois de examinar o rosto de cada menina, não há nenhum sinal da pequena cantora. E se Luna se enganou?

Entramos na sala de aula. Madeleine estava certa, eu estou extremamente entediado. Maldita escola sem a pequena cantora... e agora estou matriculado para o ano todo. Como é que eu vou dizer à Madeleine eu não quero mais “estudar“?

Durante o intervalo eu começo a minha busca perguntando se alguém sabe sobre a pequena cantora ‘andaluziana’, aquela que está sempre esbarrando nas coisas.

Ninguém responde.

‘Ela não estuda aqui?’

Nenhuma resposta.

Eu me pergunto se alguma coisa grave aconteceu com ela. Será que ela esbarrou em algo duro e se machucou muito?

Só então, um garoto esquisito se ergue entre as fileiras. Ele é mais velho que os outros, e o topo de sua cabeça é quase mais alto do que os trilhos. No momento em que eles o veem, o resto dos alunos se acovardam. Seus olhos negro escuros fazem o meu sangue gelar.

Ele é magro como uma árvore morta, elegante como um espantalho vestido por um alfaiate sofisticado, e seus cabelos espetados se projetam para fora, como as asas de um pássaro.

‘Ei, você! Garoto novato! O que você quer com a pequena cantora?‘

Sua voz é profunda como uma lápide falante.

‘Um dia, eu a vi cantando e se esbarrando nas coisas. Eu gostaria de dar-lhe um par de óculos de presente.’

Minha voz está trêmula.

‘Ninguém está autorizado a falar comigo sobre Miss Acacia e seus óculos! Nunca mencione o nome dela. Você entendeu, anão?’

Eu não respondo. Um murmúrio nasce da multidão: ‘Joe...’

Os segundos estão cada vez mais pesados. De repente, ele aponta seu ouvido em minha direção e pergunta:

‘Como você faz esse barulho estranho, tic-tac?’

Eu não digo nada.

Ele se dirige calmamente até mim, inclinando sua carcaça alta para posicionar seu ouvido próximo ao meu coração. Meu relógio está palpitante. O tempo parou para mim. Sua barba de menino pica em meu peito como arame farpado. Cunnilingus aponta seu focinho e fareja o topo da cabeça de Joe. Se ele começa a fazer xixi, as coisas podem ficar complicadas.

De repente, Joe arranca fora meus botões e rasga o meu casaco, expondo os ponteiros do relógio que brotam pela minha camisa. A multidão de curiosos faz ‘Ooooh...’ Eu estou tão envergonhado, ele poderia muito bem ter baixado as minhas calças. Ele escuta o meu coração por um tempo, depois se levanta lentamente.

‘Isso é o seu coração fazendo todo esse barulho?’

‘Sim.’

‘Você está apaixonado por ela, não é?’

Sua voz profunda e arrogante faz arrepiar todos os meus ossos.

Meu cérebro quer dizer ‘não, não...‘ mas o meu coração acessa os meus lábios mais rápido.

‘Sim, eu estou.’


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