quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 05


Eles me avisaram para eu não subir no topo do Trono de Arthur. Todos diziam que a velha senhora era louca, pensou minha mãe. A pobrezinha parecia estar morrendo com o frio. Se a médica estava ocupada consertando meu coração, imagino que ela teria um trabalho ainda maior com o da minha mãe... Cá estou eu, deitado completamente nu, aguardando na bancada próxima ao balcão de trabalho, meu peito preso em um torno metálico. E eu começo a me sentir seriamente com frio.

           Um velho gato preto, com maneiras servis, está empoleirado em cima de uma mesa de cozinha. A médica fez um par de óculos para ele. Armação verde para combinar com seus olhos – elegante. Calmamente, ele assiste à cena, tudo que falta nele é um jornal sobre finanças e um cigarro.

           Dra. Madeleine começa a vasculhar a prateleira de relógios de corda. Ela remove vários modelos diferentes: de aparência severa e pontiaguda, arredondados, de madeira e de metal, mostrando a ponta dos ponteiros dos relógios. Com uma orelha ela escuta o meu coração defeituoso, com a outra o tic-tac dos relógios. Ela torce seus olhos, aparentemente insatisfeita. Ela parece como uma daquelas terríveis senhoras de idade que levam quinze minutos para escolher um tomate no mercado. De repente, sua face se ilumina ‘Esse!’ ela grita, acariciando as engrenagens de um antigo relógio de cuco.

           O relógio mede aproximadamente quatro centímetros por oito, e é feito inteiramente de madeira com exceção de suas partes mecânicas, o mostrador e as alças. O acabamento é bastante rústico, ‘resistente’, pensa a médica em voz alta. O cuco, alto como o osso do meu dedinho, dá o ar de um pássaro morto.

           ‘Você terá um bom coração com esse relógio! E será uma excelente combinação para sua cabeça em forma de pássaro’, Dra. Madeleine disse para mim.

           Eu não sou tão experiente nesse negócio de pássaros. Dito isso, ela está tentando salvar a minha vida, então eu não discuto.

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