Eles me
avisaram para eu não subir no topo do Trono de Arthur. Todos diziam que a velha
senhora era louca, pensou minha mãe. A pobrezinha parecia
estar morrendo com o frio. Se a médica estava ocupada consertando meu coração,
imagino que ela teria um trabalho ainda maior com o da minha mãe... Cá estou
eu, deitado completamente nu, aguardando na bancada próxima ao balcão de
trabalho, meu peito preso em um torno metálico. E eu começo a me sentir
seriamente com frio.
Um velho gato preto, com
maneiras servis, está empoleirado em cima de uma mesa de cozinha. A médica fez
um par de óculos para ele. Armação verde para combinar com seus olhos – elegante.
Calmamente, ele assiste à cena, tudo que falta nele é um jornal sobre finanças
e um cigarro.
Dra. Madeleine começa a
vasculhar a prateleira de relógios de corda. Ela remove vários modelos diferentes: de aparência severa e pontiaguda, arredondados, de madeira e de metal,
mostrando a ponta dos ponteiros dos relógios. Com uma orelha ela escuta o meu
coração defeituoso, com a outra o tic-tac dos relógios. Ela torce seus olhos,
aparentemente insatisfeita. Ela parece como uma daquelas terríveis senhoras de
idade que levam quinze minutos para escolher um tomate no mercado. De repente,
sua face se ilumina ‘Esse!’ ela
grita, acariciando as engrenagens de um antigo relógio de cuco.
O relógio mede
aproximadamente quatro centímetros por oito, e é feito inteiramente de madeira
com exceção de suas partes mecânicas, o mostrador e as alças. O acabamento é
bastante rústico, ‘resistente’, pensa a médica em voz alta. O cuco, alto como o
osso do meu dedinho, dá o ar de um pássaro morto.
‘Você terá um bom coração
com esse relógio! E será uma excelente combinação para sua cabeça em forma de
pássaro’, Dra. Madeleine disse para mim.
Eu não sou tão experiente
nesse negócio de pássaros. Dito isso, ela está tentando salvar a minha vida,
então eu não discuto.
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