segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Capítulo 01 - Parte 06



     Dra. Madeleine veste um avental branco. Dessa vez eu tenho certeza que ela vai voltar ao trabalho na cozinha. Eu me sinto como o frango grelhado que eles esqueceram de matar. Ela caça um par óculos de soldador ao redor da vasilha de saladas, escolhe um e cobre o restante do seu rosto com um lenço. Eu não consigo mais vê-la sorrindo. Ela se inclina sobre mim e me força a respirar éter. Minha pálpebras fecham, se rendendo como persianas numa tarde de verão em alguma lugar longe daqui. Eu já não quero mais gritar. Eu olho para ela, então o sono vagarosamente toma conta de mim. Tudo nela é curvo: seus olhos, suas bochechas enrugadas como uma maça Cox’s Orange Pippins, seus seios. Ela é feita para lhe envolver. Eu vou fingir estar com fome mesmo quando eu não esteja, apenas para me esconder no seu peito. Ela corta a pele do meu peito usando um grande par de tesouras serrilhadas. O toque de deus pequenos dentes fazem cócegas. Ela desliza o relógio debaixo de minha pele e começa a conectar as engrenagens nas artérias do meu coração. É um processo delicado; nada pode ser danificado. Ela usa um arame de aço super fino fazendo uma dúzia de nós em miniatura.  O coração bate de tempos em tempos, mas apenas uma mínima quantidade de sangue é bombeada nas artérias. ‘Como ele é branco!’, sussurra.

          Chegou a hora da verdade. Dra. Madeleine ajusta o relógio para meia-noite... Nada acontece. O mecanismo do relógio não parece forte o bastante para estimular o coração. Eu não tive nenhum pulso por um longo e perigoso período de tempo. Minha cabeça está girando, em um sonho exaustivo. A medica aperta gentilmente as engrenagens para colocá-las em movimento. Tic-tac, faz o relógio. Bo-boom, responde o coração, e as artérias se tornam vermelhas. Pouco a pouco, o tic-tac fica mais rápido, e da mesma forma o bo-boom. Tic-tac. Bo-boom. Tic-tac. Bo-boom. Meu coração está quase batendo na velocidade normal. Dra. Madeleine gentilmente remove seus dedos das engrenagens. O relógio desacelera. Ela reinicia o dispositivo; mas no momento em que ela tira os dedos, o pulso enfraquece. Ela aparenta alguém que abraça uma bomba, aguardando o momento em que irá explodir.

         Tic-tac. Bo-boom. Tic-tac. Bo-boom.

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