quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Capítulo 02 - Parte 02




No começo, eu não entendia o que estava acontecendo. Eu era muito jovem. Mas como fui crescendo, fiquei frustrado com o meu papel de vira-lata do canil. Como pode um simples relógio afastar as pessoas de mim tão horrivelmente? É apenas madeira, afinal.

Hoje, após ter falhado em ser adotado pela enésima vez, um do pacientes regulares da doutora se aproxima de mim. Arthur é um ex-policial que se tornou um mendigo alcoólatra. Tudo nele é amarrotado, do sobretudo às pálpebras. Ele é bem alto. Ficaria até mais alto se levantasse-se direito. Ele normalmente não fala comigo. E curioso como possa soar, eu gosto do nosso hábito silencioso. Existe algo tranqüilizador na forma que ele manca  pela cozinha, meio sorridente e acenando com a mão.

Enquanto Madeleine está cuidando do jovem, bem vestido casal na sala adjacente, Arthur ginga pelos cantos. Sua espinha range como o portão de uma prisão. Finalmente, ele diz:

‘Okay, não se preocupa, fiote. Nada dura prá sempre. Nós sempre melhoramos no final, mesmo que demore um tiquinho. Eu perdi meu emprego algumas semanas antes do dia mais frio do mundo, e minha muié me enxotou de casa. E em pensar que eu me alistei na policia por causa dela. Eu sonhava em ser músico, mas estávamos duros.’

‘O que aconteceu para a policia querer se livrar de você?’

‘Um leopardo nunca muda suas pintas. Eu costumava cantar o depoimento da testemunha ao invés de ler em voz alta, e eu gastei mais tempo no meu harmônio do que na máquina de escrever da delegacia. Além do mais, eu bebi um tiquinho de uísque,  o bastante prá dar aquela voz rouca... Okay, mas o que é que eles sabem? Eles me pediram para ir embora, no finzinho. Então foi quando tive que explicar para minha muié... Daí eu gastei meu restinho de dinheiro em uísque. E isso foi o que salvou minha vida, ta entendendo?’

Eu adoro o seu hábito de dizer 'ta entendendo?’. Solenemente, ele me explica como o uísque "salvou sua vida".

‘No dia 16 de abril de 1874, o frio rachou minha espinha: a única coisa que me impediu de congelar foi a quentura do álcool que empurrei prá dentro, depois daqueles eventos sombrios. Eu sou o único mendigo que sobreviveu. Todos os meus parceiros morreram de frio.’



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